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Metanol totalmente deuterado é detectado no espaço pela primeira vez

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Duas moléculas em modelo de bolas e varetas, lado a lado: à esquerda o metanol comum, CH₃OH, com um carbono cinza, um oxigênio vermelho e quatro hidrogênios brancos; à direita o CD₃OD, com a mesma forma, mas com os quatro hidrogênios trocados por átomos de deutério azuis.
O metanol comum e sua forma totalmente deuterada, CD₃OD, têm a mesma estrutura: o deutério só acrescenta um nêutron a cada hidrogênio. Em torno de IRAS 4A2, a equipe mediu cerca de quatro moléculas de CD₃OD para cada 10.000 de metanol comum; se o deutério se distribuísse ao acaso, haveria menos de uma em dez bilhões de bilhões. Desenho do SkyFlux; proporção de Belloche et al. 2026.SkyFlux · Belloche et al. 2026

Com o ALMA, o grande conjunto de antenas de rádio do deserto do Atacama, no Chile, astrônomos encontraram metanol em que todos os átomos de hidrogênio foram trocados por deutério. É a primeira vez que essa forma é identificada com segurança no espaço interestelar. A molécula, CD₃OD, está presente em torno da jovem protoestrela IRAS 4A2, na nuvem molecular de Perseu, e há mais dela do que os modelos químicos atuais conseguem explicar.

O que torna este metanol pesado

O metanol, CH₃OH, é o álcool mais simples: um átomo de carbono com três átomos de hidrogênio, ligado a um átomo de oxigênio que carrega o quarto. O deutério é um hidrogênio que tem no núcleo, além do próton, um nêutron; por isso pesa o dobro, mas forma as mesmas moléculas. As versões de uma molécula que só diferem nos isótopos se chamam isotopólogos.

Já se conheciam quatro formas parcialmente deuteradas do metanol, com um, dois ou três átomos de deutério (um único deutério pode ficar no carbono ou no oxigênio). Estudos anteriores tinham encontrado apenas indícios incertos da forma totalmente deuterada. Agora, uma equipe liderada por Arnaud Belloche, do Instituto Max Planck de Radioastronomia, relata a primeira detecção segura do CD₃OD, a primeira molécula interestelar encontrada com quatro átomos de deutério.

A surpresa está na quantidade. Na nossa Galáxia há apenas cerca de 1,6 átomo de deutério para cada 100.000 átomos de hidrogênio. Se o deutério se distribuísse ao acaso, haveria menos de uma molécula totalmente deuterada para cada dez bilhões de bilhões de moléculas de metanol comum. Em torno de IRAS 4A2, a equipe mediu cerca de quatro moléculas de CD₃OD para cada 10.000.

Como o ALMA reconhece uma molécula que não consegue ver

As moléculas de um gás morno giram, mas só em certas velocidades fixas. Cada vez que uma molécula passa a girar mais devagar, ela emite uma onda de rádio numa frequência exata. Átomos mais pesados mudam o modo como a molécula gira, e assim cada isotopólogo tem seu próprio conjunto de frequências — uma impressão digital que antes precisa ser medida em laboratório. No caso do CD₃OD, esse trabalho foi publicado em 2023.

As observações vêm do COMPASS, um grande programa do ALMA que examinou 11 protoestrelas jovens parecidas com o Sol — estrelas que ainda estão se formando — em frequências de 279,0 a 311,7 GHz (comprimentos de onda de cerca de um milímetro). O ALMA enxerga os detalhes até cerca de 100 unidades astronômicas de distância de cada protoestrela (100 vezes a distância entre a Terra e o Sol), uma região do tamanho de um sistema planetário. Na direção de IRAS 4A2, dez linhas espectrais do CD₃OD apareceram intensas e sem sobreposição significativa com linhas de outras moléculas, o que torna a identificação segura.

Um segundo estudo do COMPASS encontrou, em 7 das 11 protoestrelas, uma linha do metanol em 302,9 GHz amplificada pelo próprio gás, como a luz num laser: um maser. Seis delas estão no estágio mais inicial, chamado classe 0; na sétima, o maser provavelmente se deve ao fluxo de gás expelido por uma vizinha de maior massa.

Por que essa química importa para planetas e cometas

O metanol se forma nas camadas de gelo que cobrem os grãos de poeira: átomos de hidrogênio se prendem, um a um, ao monóxido de carbono congelado, na fase fria que antecede o nascimento da protoestrela. Em temperaturas tão baixas, a massa extra do deutério favorece algumas reações, e as moléculas ficam muito mais ricas em deutério do que a abundância cósmica dele faria esperar. O teor de deutério do metanol guarda, assim, o registro de como o gelo se formou. Quando a estrela jovem aquece os arredores, o gelo vira gás — que em IRAS 4A2 está a cerca de 200 kelvins (−73 °C) — e o ALMA consegue medir o metanol nesse gás.

Os modelos dessa química não explicam o que se observa: para as formas com dois ou três átomos de deutério, preveem quantidades de dez a cem vezes menores do que as observadas, e o CD₃OD aumenta ainda mais essa diferença. Os autores sugerem que falta aos modelos um ingrediente essencial.

Os cometas ligam essa química ao nosso Sistema Solar. Quando observações do ALMA de outro sistema jovem, IRAS 16293-2422, foram comparadas com as medições da sonda Rosetta no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, as quantidades relativas de muitas moléculas se mostraram correlacionadas, com alguma dispersão. Isso sugere que parte do gelo dos cometas e de outros blocos de construção dos planetas é herdada da fase em que IRAS 4A2 se encontra hoje.

Onde olhar e o que dá para ver

IRAS 4A2 fica no lado sul de NGC 1333, um aglomerado de estrelas jovens em Perseu envolto numa nebulosa de reflexão — poeira iluminada por estrelas próximas. Sua posição é ascensão reta 3 h 29 min, declinação +31° 14′, e a distância é de cerca de 950 anos-luz (290 parsecs). Em meados de novembro, o aglomerado fica em oposição ao Sol e atinge a maior altura no meio da noite; de dezembro a fevereiro, ele fica bem posicionado no céu no início da noite. Ao sul da latitude de cerca de 59° S, ele nunca aparece acima do horizonte; em São Paulo (23,5° S), culmina a cerca de 35° acima do horizonte norte.

A protoestrela é invisível em telescópios amadores, porque está mergulhada no gás e na poeira de que está se formando; seu metanol só aparece em espectros de ondas milimétricas. Ao que parece, não foi publicado nenhum valor confiável do brilho visual da nebulosa ao redor.

Fontes e licenças

  • Belloche, Spezzano, Coutens et al., Astronomy & Astrophysics 714, A55 (2026), COMPASS VII. First interstellar detection of fully deuterated methanol — Primeira detecção interestelar robusta de CD₃OD na direção de IRAS4A2; primeira molécula interestelar com quatro deutérios; isotopólogos deuterados já detectados; dez linhas de CD₃OD claramente detectadas (duas parcialmente contaminadas, seção 3.2); levantamento em 279,0–311,7 GHz; distância de 290 pc; temperatura rotacional de cerca de 200 K; CD₃OD/CH₃OH cerca de 4 × 10⁻⁴; D/H da Galáxia cerca de 1,6 × 10⁻⁵; metanol formado por hidrogenação de CO no gelo dos grãos; modelos aquém das observações em uma a duas ordens de grandeza; falta um processo nos modelos; espectroscopia do CDMS (Ilyushin et al. 2023). Acesso aberto, CC BY 4.0. https://doi.org/10.1051/0004-6361/202659642 (arXiv: https://arxiv.org/abs/2610.07279)
  • Comunicado de imprensa do ALMA, 7 de outubro de 2026 — Grande programa COMPASS, 11 estrelas jovens parecidas com o Sol, mais de 100 horas de observação e sete artigos na A&A. https://www.almaobservatory.org/en/press-releases/cosmic-cocktail-alma-reveals-exotic-methanol-around-young-stars/
  • Comunicado de imprensa do Instituto Max Planck de Radioastronomia, 7 de outubro de 2026 (em alemão) — O metanol como ponto de partida para moléculas maiores nos grãos de gelo; liberação para o gás quando a estrela aquece os arredores; linhas não identificadas, possivelmente de CH₂DOD e CHD₂OD; trabalho de laboratório em andamento. https://www.mpifr-bonn.mpg.de/pressemeldungen/2026/erster-nachweis-von-schwerem-methanol-im-weltraum?c=8727
  • Jeong, Lee, Jørgensen et al., Astronomy & Astrophysics 714, A54 (2026), COMPASS VI — Maser de metanol de classe I em 302,913 GHz em 7 de 11 fontes; HOPS 108 provavelmente estimulada pelo fluxo de saída (outflow) da protoestrela de massa intermediária HOPS 370; sem ela, 6 de 10 protoestrelas de baixa massa, todas de classe 0. https://doi.org/10.1051/0004-6361/202558734
  • Jørgensen, Coutens, Drozdovskaya et al., Astronomy & Astrophysics 714, A49 (2026), COMPASS I. Overview — 11 protoestrelas de tipo solar das classes 0 e I, ricas em linhas espectrais; 279,0–311,7 GHz; a região interna de ~100 UA em torno de cada fonte. https://doi.org/10.1051/0004-6361/202558725
  • Drozdovskaya et al., Monthly Notices of the Royal Astronomical Society 490, 50–79 (2019) — As abundâncias moleculares relativas na protoestrela IRAS 16293-2422 B se correlacionam com as do cometa 67P medidas pela Rosetta; os voláteis dos cometas são em parte herdados. https://doi.org/10.1093/mnras/stz2430 (arXiv: https://arxiv.org/abs/1908.11290)
  • SIMBAD, [JCC87] IRAS 4A2 e NGC 1333 — IRAS 4A2 em AR 03h 29m 10,4s, Dec +31° 13′ 32″ (ICRS); centro de NGC 1333 em AR 03h 29m 11,3s, Dec +31° 18′ 36″, dimensão 8′. https://simbad.cds.unistra.fr/simbad/sim-id?Ident=%5BJCC87%5D+IRAS+4A2

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